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Quem sabe ainda sou uma garotinha

É tão mais fácil ser uma garotinha… Eu penso nisso sempre, me preocupo em lembrar-me disso sempre, mesmo não encarando a maturidade como algo que machuca. Eu consigo fugir de mim quando vou de encontro àquela que eu fui e, pasmem, também consigo voltar segura e consciente quando bem quero. Ou preciso. Ser uma garotinha não me impede de ser mulher, apenas faz de mim a combinação de tudo o que necessito para realmente ser. Sim, eu sou agora porque já fui.

Quem sabe ainda sou uma garotinha

Mas há momentos na vida em que a gente não pode ser uma garotinha, momentos esses em que é preciso agir como mulher e confesso ser isso o que me incomoda: a obrigação. Quero poder escolher quando ser adulta ou não, é um direito que eu gostaria de possuir e que me fosse dado sem questionamentos, assim como toda criança deveria ter direito a saúde e educação. Não é assim que funciona, eu sei.

Então eu fico aqui revoltada com as regras impostas por quem eu desconheço, emburrada, irritadiça, faço bico. Posso até mesmo ser chamada de infantil no momento exato em que esperam de mim uma reação oposta. E, se eu quero ser apenas uma garotinha, isso não significa que não desejo que esperem o que quer que seja de mim?! Ah, mas é claro, de nada importa a minha vontade agora, porque é hora de ser mulher.

Senhora do Tempo

Se eu fosse Senhora do Tempo as horas não passariam tão devagar como estão passando agora, nem passariam tão depressa como aconteceu antes. Elas teriam sua certa duração, de acordo com a minha vontade. Poderiam até mesmo parar no instante em que eu desejasse, sob a influência de um estalar de dedos, dos meus dedos, esses mesmos que escrevem agora para eternizar aquilo que, de outra forma, ficaria apenas na lembrança. Se eu fosse Senhora do Tempo o passado não seria fixo, não seria imutável e talvez sequer fosse passado. Eu poderia conjugar os verbos no tempo que eu bem quisesse (afinal, eu seria sua Senhora) e não precisaria esperar por um futuro que quero viver agora. Não, eu não precisaria nem mesmo esperar. Se eu fosse Senhora do Tempo aquele momento se repetiria por muitas, muitas e muitas outras vezes. Eu o prolongaria, brincaria com ele como uma criança, sem pressa, sem compromisso.

Senhora do Tempo

Depois de reviver as sensações, cada uma delas por quantas vezes eu sentisse vontade, eu colocaria o tempo em suas mãos. Seus dedos estariam sobre o relógio e você poderia brincar de ser Deus. Então, o que você faria? Teria coragem o suficiente para apressar as coisas, pular etapas, dar um salto maior do que é capaz agora? Ou moveria os ponteiros ao contrário para assim poder fazer tudo de forma diferente? Enfim… Se eu fosse Senhora do Tempo, não estaria fazendo tais perguntas. Eu teria todas as respostas sem precisar perguntar.

Mas o tempo é real e é cruel, ele finge não passar nunca ou passa rápido demais e esses movimentos nunca estão de acordo com a nossa vontade. Nem com a minha, nem com a sua. Então, enquanto fico aqui pensando no Tempo como se sua Senhora eu fosse, ele insiste em provar que me bastaria ser Senhora de Mim.